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Academia
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04 de Novembro de 2009
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Pesquisas investigam escolarização de adolescentes em conflito com a lei
Adolescentes em conflito com a lei reconhecem a importância da escola
para projetos futuros, mas não veem sentido nos estudos no presente. A
frequência escolar está relacionada à decisão judicial. Esse é um dos
diagnósticos de duas pesquisas de mestrado apresentadas em
universidades públicas paulistas.
Joana D’Arc Teixeira, da Universidade Federal de São Carlos (UFScar),
investigou a trajetória escolar de 92 adolescentes internos de uma
unidade da Fundação Casa (Ex-Febem), localizada no interior do estado
de São Paulo. 66% deles cursavam as séries do Ensino Fundamental. O
objetivo era analisar a história escolar antes da aplicação da medida
de internação e na Unidade de Internação.
Já Ivani Ruela de Oliveira Silva, da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), campus Rio Claro, acompanhou o cotidiano escolar 5
adolescentes entre 15 e 17 anos em liberdade assistida, uma das medidas
socioeducativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) para autores de ato infracional. A intenção era verificar como
ocorria a inclusão desses jovens nas escolas de Americana, município
paulista.
As interrupções dos estudos, a expulsão, a repetência, o abandono e a
violência fazem parte dos relatos dos adolescentes, entrevistados por
Joana, sobre sua trajetória escolar antes da internação.
Uma pesquisa, realizada pela Fundação Casa em 2006, com 1190 internos,
mostrou que 41% dos adolescentes não estavam matriculados em escolas
antes da internação. O percentual daqueles matriculados, mas não
assíduos, foi de 29%. A principal razão apontada pelos entrevistados
foi falta de interesse (37%). Ajudar a família (17%), indisciplina
(13%) e envolvimento com drogas/crime (12%) também foram motivos
mencionados.
Escolarização em regime de internação
“Aqui! Eu sou obrigado a estudar. Acho bom, pois aqui eu tenho que
estudar e respeitar os professores”, afirmou o adolescente, 16 anos,
estudante da 4ª série do Ensino Fundamental. “A escola aqui é igual a
que tem no ‘mundão’, são as mesmas matérias e tem o mesmo tanto de
aulas. O que é diferente, é o número de alunos, aqui é menor”,
descreveu o estudante do 1 ª do Ensino Médio da Fundação Casa. Esses
relatos, coletados pela pesquisadora da UFScar, apresentam as
percepções sobre a escola dentro da instituição.
Segundo Joana, os jovens questionaram a organização escolar, a
metodologia de ensino e a postura adotada pelos profissionais para
exercer a autoridade. Na unidade estudada, as salas de aula tinham em
média de 5 a 8 alunos. “Os jovens se perguntavam se não era possível
apresentar um ensino de melhor qualidade com um número reduzido de
alunos”, comenta Joana. Essas preocupações não apareceram nos relatos
sobre a vivência escolar fora da instituição.
Já os professores entrevistados para o estudo destacaram a falta de
preparação para lecionar nessas instituições. “É necessário e urgente
políticas públicas que visem à formação de professores. Também é
preciso elaborar propostas teórico-metodológicas de trabalho com os
adolescentes”, ressalta Joana.
Para pesquisadora, os adolescentes prosseguem seus estudos dentro da
instituição devido ao seu caráter compulsório e ao sistema de
vigilância. “A escolarização faz parte do cumprimento da medida
jurídica”. De acordo com Joana, a medida socioeducativa não consegue
reconstruir o sentido da escola.
Dados da pesquisa da Fundação Casa revelam que 66% dos adolescentes
concordam com a frase “A única coisa boa da escola é que ajuda o tempo
passar mais rápido”. 64% também concordaram com a afirmação “aqui, se
você não faz algum curso, você acaba se atrasando. Então para você não
aumentar sua caminhada aqui, você acaba fazendo”.
“Esses jovens constituíram uma relação negativa com a escola. Essa
relação é reiterada quando são inquiridos pelo sistema de justiça
juvenil. Outra questão que se coloca é: como será a inserção desses
jovens pós-internação?”, problematiza.
Escolarização em regime de liberdade assistida
Para o mestrado, Ivani mapeou o que ocorreu com 32 egressos em
liberdade assistida da Unidade de Internação Provisória, do Núcleo de
Atendimento Integrado de Americana (NAIA), órgão ligado à Fundação
Casa. No ano letivo de 2007, todos se matricularam em escolas públicas,
4 no Ensino Fundamental regular, 11 no Ensino Médio regular, 14 no
Ensino Fundamental e 3 no Ensino Médio na modalidade Educação de Jovens
e Adultos (EJA).
“Quando visitamos as escolas onde esses adolescentes estavam
matriculados, verificamos que apenas 5 deles frequentavam as aulas
regularmente, 4 apresentavam frequência irregular, 21 estavam evadidos
e 2 internados para tratamento de saúde”, descreve Ivani.
Segundo Ivani, que focou sua pesquisa nos 5 adolescentes com frequência
regular, as falas dos alunos em liberdade assistida indicam que as
relações pessoais com colegas e educadores são marcadas por conflitos e
ambiguidade. “A escola é vista com um espaço para socialização. Não é
percebida como uma instituição que participa da formação do jovem em
suas dimensões pessoal, cultural, político e social. Para os
entrevistados, a escola não é sentida no tempo presente, é percebida
somente na relação com sua vida futura”.
Já o relato dos profissionais e colegas aponta as contradições: tratar
igual, tratar diferente, contar que há alunos nesta situação, expulsar
ou transferir ou aceitá-los e acolhê-los.
“As escolas, em geral, discriminam esses estudantes. Têm grande
dificuldade para trabalhar com os alunos considerados ‘problema’. Para
evitar a evasão e quebrar o ciclo da exclusão escolar, é preciso ter um
olhar diferenciado para alunos nessa situação”, defende Ivani.
De acordo com o ECA, os adolescentes em liberdade assistida devem se
matricular em uma instituição de ensino. A frequência e o
aproveitamento escolar devem ser supervisionados por um orientador, com
o apoio e a supervisão da autoridade competente.