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Escolas comercializam seus próprios métodos de ensino

A eficiência com que os cursos preparatórios, surgidos em sua grande maioria entre os anos 60 e 70, colocavam alunos nas principais universidades brasileiras fez com que suas marcas ganhassem a confiança de pais e estudantes. De lá pra cá, foi um passo para que expandissem seus métodos a outros níveis de ensino e alcançassem até mesmo colégios tradicionais.


Os sistemas de ensino estão presentes em milhares de escolas, não só no país mas também no exterior. Comercializam material didático (apostilas, cadernos de exercícios e CD-ROM, entre outros) e oferecem treinamento a professores e coordenadores pedagógicos, além de serviços como cursos e palestras.


Uma das mais recentes incursões nesse mercado é a da católica Rede Salesianas de Escolas, que tem mais de 120 anos no Brasil. Com cerca de 90 mil alunos espalhados por 110 escolas, a rede acabou de desenvolver material didático próprio: vai introduzi-lo em suas unidades e partir para a sua comercialização no ano que vem. “As escolas religiosas têm perdido por ano cerca de 2% dos alunos. Não costumamos ter muitas estratégias de marketing e acabamos ficando isolados. Chegou a hora de mudar isso”, diz o padre Nivaldo Luiz Pessinatti, presidente da Conferência dos Salesianos do Brasil.


Para coordenadores e diretores de institutos produtores desses sistemas, o objetivo é disseminar um método de ensino de qualidade que dê certo em sala de aula, mas não deixe de lado questões mercadológicas. “Toda escola é uma empresa, e a concorrência está cada vez mais agressiva. É preciso trabalhar o aspecto financeiro ao lado do pedagógico. Caso contrário, uma escola pode correr o risco de fechar”, diz Márcia Carvalinha, coordenadora pedagógica do Sistema Objetivo.


Como o Objetivo, que passou a oferecer às escolas parceiras assessoria em marketing e gestão empresarial, além de apoio pedagógico, outros grupos têm seguido esse caminho. O motivo, segundo o superintendente do Sistema COC, Nilson Curti, é que muitas escolas adotam uma administração familiar ou são formadas por educadores sem visão de mercado. “Sugerimos estratégias para que a escola se solidifique pedagógica e economicamente, consiga visibilidade e bons resultados; ela cresce, e o sistema também”, diz Curti.


Esse crescimento foi sentido por Sonia de Carvalho Aleixo, do colégio Jesus Maria José, em Franca (400 km ao norte de São Paulo). Fundado há 85 anos, o colégio católico começou a sentir a pressão da concorrência. “Precisávamos nos modernizar, estávamos perdendo alunos”, diz Sonia. Em 1996, o colégio optou pelo Sistema Etapa na quinta série do fundamental e no primeiro ano do ensino médio. Hoje, ele é utilizado do ensino infantil ao pré-vestibular.


Da crise que levou o colégio a ter pouco mais de 200 alunos, houve um salto: atualmente, tem mais de 800 estudantes. “A opção por um novo sistema de ensino, aliada à firmeza da direção e ao time de professores, resultou em sucesso”, conta.


Esse resultado, para Sonia, pode ser medido também pelo ingresso dos alunos em universidades “prestigiadas”: em 2003, 80% dos que prestaram vestibular foram aprovados, segundo a diretora. “O pai que coloca o filho no infantil já quer saber a aprovação que obtemos nos vestibulares. Isso conta muitos pontos”, diz.


Não à toa, uma das formas de publicidade mais utilizadas é usar como exemplo alunos que conseguiram uma vaga na USP ou Unicamp. “Não há como negar que nossa eficiência em preparar os estudantes para os maiores vestibulares é um ponto muito forte”, diz Leila Rensi, supervisora pedagógica do Sistema Anglo. Márcia, do Objetivo, completa: “Eles querem o respaldo da marca”.


“Se a classe média só quer saber se o filho vai entrar na faculdade, por que as escolas têm de pensar diferente? A família compra um produto, e a escola oferece um. Ganhar dinheiro com educação não é pecado mortal”, diz a educadora Guiomar Namo de Mello, diretora-executiva da Fundação Vitor Civita, que apoia e realiza projetos educacionais.


Por trás dessa relação de compra e venda estão questões delicadas, acredita a socióloga e educadora Eloísa Mattos Höfling, do Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas e Educação da Faculdade de Educação da Unicamp. “Acho que existe um risco muito grande nesse esquema, que funciona quase como um franchising”, diz Eloísa, para quem o processo educacional envolve relações particulares e diferenciadas. “O material uniformizado pode levar a uma relação tecnicista com a educação”, critica.


De outro lado, o economista Cláudio de Moura e Castro, ex-diretor da área de educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento e consultor pedagógico no Sistema Pitágoras, é um defensor dessa expansão. Para ele, os sistemas privados de ensino estão fazendo o que as secretarias de Educação deveriam fazer, mas não fazem, ou seja, cuidar do planejamento minucioso da educação que vai ser oferecida – desde as aulas até o material didático.


“O sucesso dessas redes privadas deve-se ao fato de elas terem um projeto pedagógico eficiente, prestarem assessoria de qualidade e darem apoio para as escolas crescerem”, sustenta o economista.


Algumas prefeituras já adotaram essa idéia: as cidades de Vinhedo e Brotas, no interior de São Paulo, passaram a utilizar sistemas privados em escolas da rede municipal. Desde que sigam parâmetros e diretrizes estabelecidos pelo MEC, têm autonomia para decidir o método de ensino (leia texto acima).


Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educação (1995-2002) e atual diretor da consultoria educacional que leva seu nome, faz uma ponderação sobre os sistemas privados: “O risco existe com relação aos objetivos do ensino básico. Nessa fase, é preciso desenvolver a capacidade de pensar, de raciocinar – em oposição a um método que prioriza a memorização”.


Foi essa a preocupação de Laís Vieira Medina. Com o que economizou em mais de 25 anos como professora e diretora de escolas públicas, decidiu, depois de se aposentar, abrir a primeira escola particular de Cravinhos (294 km ao norte de São Paulo).


Como seu objetivo era começar com os ensinos infantil e fundamental, ela diz não ter se preocupado com os índices de aprovação dos alunos nos vestibulares. “Queria um sistema que estivesse de acordo com a minha filosofia, com meu modo de pensar a educação”, conta Laís, que em 1999 abriu o Sevime, em parceira com o Sistema Positivo. “O método me dá muito apoio, me fornece diretrizes, e eu encaixo meu modo de pensar dentro disso”.


A fazendeira Márcia Regina Motta Minohara, 33, tem três filhos no Sevime. A mais nova, Ana Júlia, tem seis anos e entrou na escola com três. “A apostila propõe atividades que façam a criança adquirir autonomia e senso de responsabilidade”, conta Márcia, para quem o fato de a escola manter um mesmo método do maternal ao ensino médio dá estabilidade. “Meus filhos terão ensino de qualidade durante todo o processo educacional, o que me dá segurança.”


Manter a autonomia também foi o aspecto que pesou na hora de a escola Crescimento, de São Luiz (MA), adotar o Sistema Pueri Domus. “Não foi fácil achar um parceiro que estivesse aliado à nossa proposta pedagógica. Queríamos fazer parte de uma rede que nos proporcionasse atualização constante sem mudar nossas características essenciais”, diz Adriane Bacelar de Castro, vice-diretora pedagógica do colégio. Tereza Vieira de Carvalho, do Centro Educacional Etip, de Santo André (na Grande São Paulo), escola que trabalha com o Dom Bosco, de Curitiba, concorda: “Concluímos que o sistema pode ser um impulso, mas o modo como o professor trabalha com ele é mais importante”.


Como o professor se encaixa nesses sistemas é um ponto nevrálgico da questão. Nenhum dos docentes ouvidos pelo Sinapse que discordam dos sistemas de ensino com que trabalham quis se identificar. Mas, quase em uníssono, criticam a limitação do trabalho em sala de aula. “Foi um choque. O professor acaba trabalhando de maneira informativa, e não formativa, e não existe liberdade de planejamento. Tudo já vem pronto, o professor só executa”, diz Francisco (nome fictício), professor de geografia em um colégio de São Paulo que, há três anos, adotou um sistema de ensino.


João Batista Araújo e Oliveira, diretor da consultoria em educação JM Associados, acredita que, quando toda a orientação metodológica é predefinida e rígida, a liberdade do professor pode ser restringida. “O sistema pode reduzir a capacidade de atuação do professor se impuser um cronograma a ser cumprido. Cabe ao docente encontrar brechas e ser criativo.”


Pais de alunos também parecem concordar que é o professor que faz a diferença em sala de aula. No final de 2003, Regina Negreiros Negrini, 26, pesquisadora na área de literatura, mudou-se de São Paulo para o litoral do Estado com Pedro, 8, seu filho. O menino teve de deixar o tradicional colégio Dante Alighieri para cursar a segunda série do ensino fundamental em uma escola que adota o Sistema Positivo.


Após um semestre, a mãe analisa os prós e contras. “Eles propõem muitas atividades via internet, o que eu acho válido. Mas acredito nos livros como as grandes fontes de conhecimento.” Regina também se incomoda um pouco com o fato de seu filho já ter um professor para cada disciplina: “Sinto falta da professora que é chamada de ‘tia’ e está mais próxima dos alunos”. Mas ela acredita que “a eficácia do sistema depende muito do professor, que é tanto melhor quanto mais atividades e materiais diferenciados ele propõe, não ficando apenas na apostila”.


(Folha de S. Paulo)