veja aqui mais anteriores
Envolvimento comunitário melhora ensinoFernanda Salles *
Na noite de 31 de março de 2005, as cidades de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense, foram alvo da maior chacina da história do estado do Rio de Janeiro, quando policiais à paisana mataram 30 pessoas nas ruas, nos bares, em frente a suas casas, em atividades corriqueiras. A experiência foi traumática para a população de toda a Baixada, que se uniu em torno de missas, passeatas e protestos. Mas, em Nova Iguaçu também foi o começo de uma tomada de consciência que, um ano e meio depois da carnificina, se reflete no comprometimento de sua população com a melhoria da educação. Fato significativo a marcar a disposição de não esquecer o acontecimento é a mudança de nome de uma escola pública. De Escola Municipal Presidente Médici, considerado um dos presidente-militar mais duro do regime ditatorial brasileiro, o colégio passa a se chamar Douglas Brasil, em homenagem ao aluno de 12 anos, uma das vítimas da chacina. O testemunho da equipe de educadores do Centro de Formação da Cidade Escola Aprendiz, que ministrou em Nova Iguaçu as oficinas do Primeiro Encontro de Educação Comunitária, entre outubro e novembro, é de uma comunidade absolutamente comprometida com a melhoria da educação local. Prova disso, são algumas medidas simples e de fácil reprodução a corroborar as políticas públicas - além do Escola Aberta, a prefeitura de Nova Iguaçu implementa, em parceria com o governo federal, o Bairro Escola e, no âmbito municipal, a integralidade no ensino. O Primeiro Encontro de Educação Comunitária envolveu 200 integrantes da rede municipal de educação - entre diretores, coordenadores e integrantes da comunidade - e fez parte das capacitações promovidas pelo ministério da Educação (MEC) para o projeto Escola Aberta, que propõe a abertura das escolas para atividades comunitárias nos finais de semana. Segundo relato dos participantes do encontro, a comunidade amadureceu após a chacina de 2005. "No início, todos os projetos sociais giravam em torno da geração de renda", afirma Mariângela da Conceição Soares, diretora da escola municipal professor Márcio Caulino Soares, no bairro Austin. "Foi depois da chacina que a comunidade acordou para a necessidade de centrar os projetos nas questões da juventude". Entre outras medidas tomadas na própria Márcio Caulino para melhorar o atendimento ao público, formado em grande parte por jovens que trabalham o dia todo em atividades informais, está a decisão de disponibilizar suas quadras esportivas no período noturno. A medida não custou um centavo a mais para a escola, uma vez que os próprios usuários passaram a cuidar da abertura e do fechamento nas horas extras de funcionamento. "Eles próprios cuidam das chaves da escola mediante a assinatura de um termo de compromisso assumindo a responsabilidade por quaisquer danos", esclarece a diretora. Outras histórias como esta foram encontradas aos montes durante o evento e reflete, entre outras coisas, autonomia das escolas para detectar e solucionar seus problemas. Outros exemplos são os casos da mãe que é convidada a freqüentar os bancos da escola, ao lado do filho, e da escola que adota o xadrez como atividade da Escola Aberta, com o objetivo de auxiliar no ensino da matemática dos dias de semana. A administração pública da cidade deve ser parabenizada. Mais do que unir políticas públicas em prol da educação, otimizando os recursos e garantindo que eles atinjam seus objetivos, ela garante autonomia para que as escolas tomem decisões que envolvam a comunidade como forma de resolver os seus problemas. |
![]() * Fernanda Salles é educadora na Cidade Escola Aprendiz, aonde desenvolve metodologias educomunicativas. Entre os trabalhos realizados está o projeto Rádio Ativo, de capacitação de jovens do ensino médio na área de rádiodifusão. Educador Aprendiz Neste espaço os educadores da Cidade Escola Aprendiz escrevem sobre assuntos relacionados ao dia-a-dia da instituiçao. |
|||