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Comer, viver, conviverFernanda Salles *
"A comida é o maior incentivo de interação (...). A cozinha e a comida são os melhores modos de nos conectarmos ao mundo exterior e, por meio delas, vamos abrindo as portas, saindo do útero, largando o peito da mãe para passear nos restaurantes" - ou produzir nossa própria comida (com o perdão do complemento, em frase impecável). As aspas acima são da colunista Nina Horta - cozinheira, dona de bufê e estudiosa das poéticas da cozinha - que escreve para o jornal Folha de S. Paulo. Suas colunas sempre me dão um "prato cheio" para refletir sobre o ato de comer e algumas atividades pedagógicas envolvendo o ato de produzir comida, experimentadas no Laboratório Pedagógico da Cidade Escola Aprendiz. Comer é a função humana mais nitidamente vital, entre todas as outras que conhecemos, embora na sociedade de consumo nem sempre nos apercebamos disso, dada a facilidade de acesso aos produtos alimentícios e à sofisticação cada vez maior envolvendo o seu preparo. Um neologismo criado pelos "manos" da Vila Madalena para designar comida, no entanto, traz à tona seu significado mais simples e essencial: "vida", como sinônimo de comida. Às vezes eles esfregam a mão na barriga e pedem: "dá vida pra mim?". Necessidade ou luxúria, por mais rudimentar que seja a cultura culinária específica, esta é capaz de nos remeter aos nossos primórdios, no qual descobrimos, por caminhos diversos, a nossa preferência, o nosso gosto e, por trás de tudo, a nós mesmos como indivíduo. Sempre que envolvemos comida nas nossas atividades observamos o poder da transformação dos alimentos para além das reações químicas. Para ilustrar, menciono duas atividades que aconteceram no Aprendiz recentemente. Durante as férias, quando muitos jovens procuram o que fazer, procuramos sair da nossa rotina e promover atividades excepcionais. Em função dessa proposta, reunimos os jovens das Trilhas Urbanas, com idades entre 15 e 21 anos, e as crianças da Escola da Praça, entre quatro e 14. Os primeiros foram desafiados a assumir o papel de educadores de seus pares, de forma que planejaram atividades por meio das quais deveriam ensinar suas habilidades para colegas e educadores. Uma jovem decidiu fazer uma "oficina" de nhoque, que acabou num almoço para todos os participantes. Cerca de vinte jovens e crianças se inscreveram mas, ao invés da bagunça esperada, o que aconteceu foi a atividade mais organizada que já se viu. Os mais novos se ofereceram para a limpeza do espaço, enquanto que os mais velhos cuidaram do preparo dos ingredientes. A comida ficou pronta, a mesa estava posta, e os bagunceiros de plantão se ofereceram para protagonizar um novo papel, ajudando a ordenar o serviço e a servir o grupo. Deu-se com os aprendizes, nessa atividade, o mesmo que com as batatas e a farinha no nhoque - o milagre da transformação. A outra experiência aconteceu na Escola da Praça, núcleo que reúne crianças entre quatro e 14 anos. Decidiu-se construir um forno à lenha, que foi inaugurado com uma grande pizzada coletiva, durante a qual foram produzidas cerca de 200 pizzas. Os educadores relatam que foi uma experiência atípica no que diz respeito à colaboração das crianças e à harmonia envolvendo o grupo. Assim como no caso relatado acima, os indivíduos que antes se excluíam do processo educativo se sentiram à vontade para participar e confraternizar, compartilhando sua cultura, seu modo de fazer e conviver. Essas experiências, que se somam a muitas outras, sempre nos fazem pensar que a hora da comida é um momento de trégua e reunião, seja nos restaurantes badalados, com as pessoas em torno de mesas fartas, ou no encontro dos carroceiros catadores de lixo, que preparam sua comida na rua, em torno de fogareiros improvisados e convidam os transeuntes a dividir sua comida - o preparo do alimento e o ato de se alimentar têm o poder da aglutinação, entre muitos outros. E é um momento que pode e deve ser utilizado no processo que chamamos de educativo. |
![]() * Fernanda Salles é educadora na Cidade Escola Aprendiz, onde desenvolve metodologias educomunicativas. Entre os trabalhos realizados está o projeto Rádio Ativo, de capacitação de jovens do ensino médio na área de rádiodifusão. Educador Aprendiz Neste espaço os educadores da Cidade Escola Aprendiz escrevem sobre assuntos relacionados ao dia-a-dia da instituiçao. |
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