Portal Aprendiz - Trabalhador faz escolha consciente pelo mercado informal

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Academia

04 de Março de 2008

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Trabalhador faz escolha consciente pelo mercado informal

Julia Dietrich

A chegada dos trabalhadores à economia informal não é aleatória. As escolhas são racionais e motivadas, entre outras causas, pela avaliação das opções encontradas no mercado, pelas relações pessoais e pela necessidade de complementação de renda. A conclusão é da psicóloga Kátia Ackermann, que defendeu, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), sua dissertação de mestrado sobre as escolhas que motivam a trajetória de emprego das pessoas.

A partir de conversas com diversos trabalhadores, a pesquisadora selecionou sete entrevistados com diferentes ocupações no mercado informal. “Dois deles tinham também um emprego registrado, mas complementavam sua renda com bicos”, explica, ressaltando um dos principais pontos que levam o trabalhador ao mercado informal. “Os entrevistados reclamaram da carga horária, falta de flexibilidade, menor liberdade e salários mais baixos do emprego formal. Porém, é claro que esses temas foram elaborados de forma diferente por cada um dos entrevistados”, complementa.

Foi o caso, por exemplo, de um dos entrevistados que, a partir de um serviço na construção civil, conseguiu outros serviços no local. “Ele contou que fazia seu próprio preço e como o serviço era bem feito foi chamado outras vezes. Nessa época, em um mês, ele chegou a ganhar R$15 mil”, explica Kátia, lembrando, porém, que este feito não se repete com freqüência.

Embora na informalidade exista a possibilidade de estipular o próprio preço e controlar o tempo de expediente, os entrevistados reclamaram da falta de segurança. Esse aspecto, chamado pela psicóloga de cultura do emprego, está fortemente associado à certeza de que os direitos ao fundo de garantia e à aposentadoria que o trabalhador tem ao ser registrado podem garantir um futuro mais estável. “Apenas um dos trabalhadores informais recolhia o valor do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). E mesmo assim, ele passou a fazer a partir de um emprego registrado”, explica.

Segundo a pesquisadora, o medo do futuro também está fortemente associado ao que ela chama de ética do trabalho, ligada, no caso do Brasil, aos valores da ética do provedor. “Todos demonstraram grande preocupação com o sustento das suas famílias. Mesmo aqueles que procuravam e queriam empregos registrados, acabavam fazendo a escolha pelo trabalho informal para complementarem suas rendas”, avaliou.

Outro ponto comum entre os entrevistados é a forma de como se dá a conquista de trabalho ou bicos a partir de redes de sociabilidade. “Não é como no networking, que a pessoa estabelece uma rede diretamente para o trabalho. O emprego vem de relações que já existiam previamente”, explica, reiterando que para o trabalhador a importância do vínculo com o outro é maior que o trabalho em si. “É o que eu chamei de relação de dádiva, em que as trocas ocorrem em nome do vínculo”.

Não por acaso, duas das entrevistadas de Kátia, que trabalham como vendedoras de ‘porta em porta’, ressaltaram entre os pontos positivos do trabalho informal a relação de amizade que elas estabeleceram com seus clientes. “Uma terceira mulher que entrevistei, a Cristiane, não tinha grande desenvoltura nessas redes, nem capacitação em alguma área específica e por isso tinha bem maior dificuldade de arranjar os bicos”, conta a pesquisadora.

Porém, embora existam facilidades no emprego informal, a pesquisadora acredita que é fundamental que o trabalhador tenha garantido os seus direitos e benefícios, como férias remuneradas, aposentadoria, assistência de saúde, entre outros. “O problema é que cada vez mais vemos diminuir o trabalho registrado por conta do ônus para o empregador. Com isso, as pessoas buscam realizar as mais diferentes atividades pela necessidade de, enfim, sobreviverem”, conclui.



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