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Violência da rua invade a escola

Brigas, furtos, tráfico, gangues. A realidade da maioria das grandes cidades entrou nas escolas. O que era para ser um local seguro não é hoje muito diferente do que se encontra nas ruas. A mais recente pesquisa coordenada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) sobre a realidade escolar, obtida com exclusividade pelo Estado, mostra que estudantes e professores hoje já vêem a escola pública como um local para se tomar cuidado.

"Essa percepção de insegurança é uma coisa recente, de dez anos para cá. Antes disso, sair de casa para a escola era completamente seguro, como deveria ser", explica a coordenadora da pesquisa, Miriam Abramovay. "Hoje eles sentem que não estão seguros. Têm medo do entorno, da violência macro que entra na escola e da micro que existe dentro dela."

Assustado com as brigas recorrentes, o professor Luiz, por exemplo, desistiu de dar aulas numa escola pública em Guaianases, na zona leste de São Paulo. Constantemente as aulas eram interrompidas por grupos de "traficantes-mirins", que não estudavam na escola, mas se consideravam donos dela. Os alunos, muitas vezes envolvidos com a criminalidade, não aceitavam repreensão, seja pelas notas ou pelo comportamento. "Um grupo de alunos incendiou os diários escolares. Outro jogou as mesas e cadeiras das classes pelas janelas."

Luiz chega à beira da falta de esperança quando se lembra dos jovens alunos se espelhando em traficantes e assaltantes. "Um aluno me disse que herói, para ele, era um tio assaltante, que andava de Golf, enquanto eu ando a pé." Segundo a pesquisa, a percepção da violência começa nas pequenas coisas. Quase 70% dos estudantes afirmam que há furtos nas suas escolas e já vêem a situação como natural. "Pessoa que pega é porque não tem, é só comprar outro, normal", diz um aluno do Rio, na parte qualitativa da pesquisa, que teve entrevistas com estudantes e professores.

Além de entenderem que os furtos são normais, professores e alunos demonstram dificuldade para lidar com isso. Não sabem o que fazer se há reclamações de furtos e, na maior parte dos casos, não há conseqüências. A violência, no entanto, vai além dos prejuízos materiais. A pesquisa aponta que quase 20% dos jovens dizem já ter batido em alguém dentro da escola – 5% admitiram já ter apanhado.

O número de meninas que afirmam ter partido para a agressão surpreendeu os pesquisadores. Quase 10% delas dizem ter agredido alguém. Apenas 3% admitem ter apanhado.

Em alguns casos, elas andam em grupos e agridem colegas que estão usando uma roupa diferente ou material escolar mais caro. "Minha filha foi espancada por cinco meninas da escola porque estava com um tênis da moda. Quase todo dia tinha confusão porque ela é tímida e não entra nas conversas delas", diz a secretária C.S., mãe de V.S., de 11 anos, estudante de uma escola estadual em Embu, na Grande São Paulo. "A diretora nunca tomou providência e tive de mudá-la de escola."

A pesquisadora chama a atenção para o fato de que as meninas estão tendo reações típicas de meninos: brigar por xingamentos ou porque estavam olhando feio uma para outra. Miriam afirma que o ambiente de violência das escolas pode estar fazendo com que elas assumam esse tipo de comportamento. "Tiveram de aprender a se defender", diz.

Um dos aspectos mais claros dessa situação é a vulnerabilidade dos prédios escolares. Invasões por pessoas de fora da escola acontecem na maior parte dos prédios. A pesquisa mostra que em 55,8% das instituições pesquisadas houve invasões. Em muitos casos, o objetivo era bater em estudantes. O ambiente no entorno colabora. Há relatos de roubos, tiroteios e brigas perto das escolas.

Resultado: problemas de convivência entre alunos e professores e dificuldade para a aprendizagem e até mesmo para a permanência na escola. "Já está comprovado que o bom ambiente escolar é um dos principais fatores de uma escola de qualidade", diz Miriam.

A pesquisadora chegou a uma conclusão assustadora. "Vejo a escola profundamente infeliz, que não consegue pensar, se relacionar com a juventude que tem de ensinar. Sobra uma enorme frustração", afirma.

(Agência Estado)