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Academia
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30 de Março de 2009
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Movimento negro traz lições que ajudam a repensar o currículo
Quais são as contribuições no processo de aprendizagem das intervenções do movimento negro nas escolas? Foi a partir desta pergunta que a professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Ana Beatriz Sousa Gomes, realizou seu doutorado, defendido na Universidade Federal do Ceará (UFC).
Na tese, “A Pedagogia do Movimento Negro em Instituições de Ensino em Teresina, Piauí: As experiências do NEAB IFARADÁ e do Centro Afrocultural Coisa de Nêgo”, a professora analisou a prática pedagógica dos educadores das duas entidades em escolas, universidades e outras instituições. Também avaliou os materiais didáticos utilizados e produzidos pelos educadores.
De acordo com a professora, a intervenção pedagógica do movimento negro valoriza a formação dos seres humanos e enriquece a discussão sobre educação das relações étnico-raciais e sobre o ensino da cultura e história africana e afro-brasileira; fortalece o discurso da diversidade cultural e, principalmente, torna a prática viável. “O trabalho do movimento negro traz lições que nos ajudam a pensar e repensar o currículo e o ambiente de nossas escolas”, afirma.
Para Ana Beatriz, o movimento deve continuar o trabalho de intervenção pedagógica, mas também é dever do sistema educacional proporcionar, na prática, a realização de atividades didáticas e pedagógicas voltadas à diversidade. “Os documentos legais já existem. O que necessitamos é operacionalizar as propostas”, comenta.
A pesquisadora, também militante do movimento negro e coordenadora do IFARADÁ, lembra ainda que a intervenção pedagógica tem sido uma prática relevante de combate ao racismo e de inserção de conteúdos relacionados à africanidade. “Os educadores militantes têm intenção de formar multiplicadores, ou seja, sensibilizam os profissionais da educação e outros agentes sociais para a necessidade da discussão”, explica.
“Não queremos que a escola fique dependente de nossas intervenções. É preciso ter autonomia. Nossas ações devem gerar frutos e têm gerado no ambiente escolar”, complementa Ana Beatriz.
Metodologia
Após o recorte temático, a professora delimitou o número de grupos do Movimento Negro. Por desenvolverem trabalhos representativos na área de educação escolar em Teresina (PI), pelo tempo de existência e pelo tipo de organização, foram escolhidos o IFARADÁ e o Centro Afrocultural “Coisa de Negô”.
O Núcleo de Pesquisa sobre Africanidades e Afrodescendência da Universidade Federal do Piauí – IFARADÁ, criado em 1993 por um grupo de professores e alunos negros da UFPI, tem como foco principal pesquisa e trabalhos acadêmicos. Por meio de intervenções pedagógicas nas escolas, como palestras e oficinas, apresenta os resultados da pesquisa como material didático e propõe mudanças nas práticas pedagógicas. Trabalha ainda com políticas de ação afirmativa na UFPI. “Ìfaradá é uma palavra oriunda da língua africana Iorubá, significa resistência pelo conhecimento”, explica a professora.
Já o “Coisa de Nêgo”, fundado em 1990 por pessoas ligadas à causa afrodescendente, é uma associação sem fins lucrativos que volta suas ações para o desenvolvimento e o resgate da cultura africana por meio de oficinas pedagógicas, capacitação social jovens de baixa renda e promoção de apresentações artísticas,
Embora tenha participado de atividades pedagógicas desses grupos em colégios, universidades e eventos governamentais, a professora deteve sua análise em duas instituições de ensino que participou de projetos duradouros e sistematizados dos grupos negros: Colégio Madre Deus, entidade privada de Ensino Fundamental e Médio, e Liceu Piauiense, escola pública estadual de Ensino Médio.
Na pesquisa, que durou dois anos, Ana Beatriz fez visitas de campo, observou as intervenções pedagógicas, entrevistou os participantes do projeto, aplicou questionários e avaliou os materiais didáticos utilizados e produzidos pelos educadores do Movimento Negro.
As intervenções no contexto escolar
“Há uma demanda das escolas pelas ações do Movimento Negro. Os professores e os gestores veem os problemas de racismo na escola, mas não conseguem discutir a questão”, aponta a professora.
Segundo Ana Beatriz, além disso, a atual formação de professores não favorece a inclusão no currículo dos conteúdos de História e Cultura Afro-Brasileira exigidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. “Os docentes não são formados para trabalharem com a diversidade étnica e cultural existente na sociedade brasileira”, enfatiza.
As atividades pedagógicas analisadas aconteceram a partir de solicitação das instituições de ensino. No Colégio Liceu Piauiense foram desenvolvidos o projeto “Poesia e música: uma abordagem da influência da literatura social” e “Projeto interdisciplinar sobre preconceito racial”. Já no Colégio Madre Deus foi executado o projeto “Kzomba: a festa das raças” com exercícios teóricos e práticos sobre o tema com alunos e docentes.
“Os colégios reconhecem que essas ações ajudam no enfrentamento do racismo. A inserção do movimento negro também contribui para a afirmação da identidade cultural afrodescendente e melhoria da auto-estima dos alunos envolvidos; para a conscientização da importância da história e da cultura africana e afrodescendente e para aquisição de conhecimentos sobre as africanidades”, destaca a professora na tese.
Material Didático
Ana Beatriz destaca outro aspecto positivo das intervenções pedagógicas do movimento negro no contexto escolar. A partir das oficinas, os educadores propõem a criação de material didático.
No Colégio Madre Deus, os docentes, os alunos e os educadores militantes elaboraram DVDs e cartilhas a partir do projeto Kzomba. Esse material está arquivado no colégio para servir de apoio e de referência para outros trabalhos na escola.
“O movimento negro se preocupa muito com essa questão da sistematização. Aqui no IFARADA, temos a preocupação em transformar nossas pesquisas em materiais didáticos. Mas o professor também precisa ir em busca de como abordar a discussão em sala e precisa ser antes de tudo um pesquisador”.