Brasil é terceiro país onde mais se consome álcool

"Bebo por causa daquele efeito de euforia que o álcool provoca… tudo fica mais alegre e os problemas desaparecem". "Bebo pra fica doidão, bebo pra pegá mulher feia e ficar achando que eu sou o cara!". "Bebo pra não desidratar".

Segundo uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) na América Latina, estas declarações de jovens que estão em uma das muitas comunidades que faz apologia ao álcool e que tem mais de 130 mil membros, não são exceção. 48% dos jovens brasileiros, de 12 a 17 anos, já consumiram ou consomem álcool.

O número coloca o Brasil em terceiro lugar na região. Apenas os jovens colombianos (51,9%) e uruguaios (50,1%) bebem mais do que os brasileiros.

"O dado não é novo, mas tem se intensificado. Os jovens experimentam naturalmente, pois estão se descobrindo. O problema é que a disponibilidade hoje é maior, a mídia incentiva mais e ocorre uma banalização do controle", analisa a psiquiatra, médica assistente do ambulatório adolescente e droga do Hospital das Clinicas de São Paulo, Jackeline Giusti.

Segundo Giusti, o dado apresentado pela ONU, de certa forma, ameniza a situação. "O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) fez uma pesquisa semelhante em 2004 e identificou que 69,5% dos jovens brasileiros já consumiram álcool", lembra, mesmo com o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) proibindo a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos.

"Nesta faixa etária, a pessoa, normalmente, descobre a bebida na balada ou quando quer participar de um determinado grupo. O problema aparece no momento em que ela passa a precisar do álcool para desempenhar esses papéis, quer dizer, quando ela não consegue mais exercê-los sóbria", explica a psiquiatra. A partir deste ponto, o simples consumo pode tornar-se vício e acarretar outros problemas. 

"Tomei meu primeiro porre aos 12. Não sabia o que era alcoolismo. Só aos 44 é que parei de viver em função da bebida. Perdi muito durante esse tempo". A história é de Carlos Diniz, 56 anos, hoje voluntário dos Alcoólicos Anônimos (AA), mas que se repete. Segundo a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), 12,3% dos brasileiros de 12 a 56 anos são dependentes de bebidas alcoólicas, número que subiu dois pontos percentuais desde 2001 e que supera o de dependentes do tabaco, 10,1%.

Durante os 12 anos como voluntário do AA, Diniz identificou que a maioria dos jovens que procuram ajuda têm, além do alcoolismo, outros tipos de vícios. A impressão do voluntário não é à toa. Segundo a psiquiatra Giusti, levantamentos comprovam que os jovens são mais propensos ao uso múltiplo de drogas, que significa utilizar mais de três entorpecentes em paralelo. "Diferente do adulto, o jovem não escolhe uma droga específica. O que ele ouviu dizer que dá um barato, ele procurar experimentar", esclarece.

Segundo a psiquiatra, o prejuízo do alcoolismo para os mais jovens é maior do que para os adultos. "Quanto mais cedo a pessoa usa, mais comprometimento ela terá. Embora o jovem não sofra com uma cirrose, porque não teve tempo para desenvolvê-la, ele vai sair mais cedo da escola, sofrer com empregos menos estáveis, além de se divorciar mais. Tudo isso porque o adulto dependente, de certa forma, conseguiu criar uma estrutura comportamental e material. O jovem, se conseguir parar de beber aos 20 anos, por exemplo, vai ter de correr atrás de tudo o que perdeu durante a adolescência", diz.
 
Apesar da gravidade da situação, muitos fatores influenciam o jovem a passar de consumidor a dependente. "É lógico que se o jovem não consome, os riscos de se tornar dependente diminuem. Apesar disso, mesmo bebendo, muitos fatores influenciam para que ele se torne dependente. Genética, impulsividade, etc", diz.

Para cercar todas as possibilidades e impedir que o jovem torne-se dependente do álcool, Giusti diz que envolvimento com grupos como do futebol, de música e outros é essencial, além do trabalho de prevenção realizado pela escola. "Mesmo assim, entre as escolas públicas que conheço, poucas fazem algum tipo de atividade. As que fazem, promovem uma palestra hoje e outra muito tempo depois. A ação deve ser contínua", diz.
  
Para colaborar neste contexto, além de atender às pessoas que procuram o AA, Diniz vai periodicamente à escolas apresentar palestras sobre alcoolismo. "No começo, os meninos ficam inseguros e agitados. Os professores têm que pedir silêncio. Depois eles prestam atenção e sempre fazem perguntas dizendo que o irmão ou o vizinho bebe muito. Os que têm mais vergonha me procuram particularmente para saber um pouco mais. É assim que procuro impedir que muitos sigam o caminho que percorri", finaliza.