Escolas de áreas conflagradas do RJ passam a oferecer educação em tempo integral

A partir desta segunda-feira (24/8), os 800 alunos da Escola Municipal Pedro Aleixo, localizada na Cidade de Deus, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro (RJ), passam a ficar na escola das 7h às 16h. Em um turno, terão as disciplinas curriculares. No contraturno, participarão de oficinas como capoeira, judô, percussão, dança e outras. Os educadores das oficinas são da própria comunidade. “O desafio é integrar as atividades extraclasse com o projeto político-pedagógico da escola”, afirma a coordenadora pedagógica da Pedro Aleixo, Lídia Figueiredo.

Além da Pedro Aleixo, outras 149 escolas da rede municipal do Rio de Janeiro iniciam as atividades do projeto Escolas do Amanhã. Lançado em janeiro pela Secretaria Municipal de Educação (SME), baseado no conceito de Bairro Educador, o programa busca oferecer educação integral em escolas localizadas em regiões violentas da cidade.

“As taxas de abandono escolar são mais do que o dobro das demais regiões do Rio. Os índices de defasagem também são mais problemáticos nessas áreas. Há crianças que apresentam bloqueios cognitivos por causa da violência. Tudo isso justifica ter um olhar mais específico para essas realidades”, explica o assessor da SME e gestor do Escolas do Amanhã, Luiz Eduardo Conde.  Cerca de 108 mil estudantes do Ensino Fundamental (1° ao 9° ano) serão beneficiados pelo programa.

Segundo Conde, a proposta está ancorada em dois pilares: educação em tempo integral, com a oferta de oficinas de arte, esportes e reforço escolar no contraturno, e ênfase no ensino de ciências, com laboratórios em cada sala de aula.

“Contratamos um método de ensino centrado na experimentação. Queremos despertar o interesse pela investigação. Gerar uma sementinha da curiosidade nos meninos. Esperamos que esse encantamento com as aulas de ciências migre para as outras áreas do conhecimento”, conta o assessor da SME.

Os professores da área de Ciências receberam capacitação no primeiro semestre. No entanto, segundo Conde, a Secretaria não conseguirá equipar todas as 1.555 salas de aula ao mesmo tempo. A implementação será feita de modo gradual.

Os docentes, coordenadores pedagógicos e diretores das Escolas do Amanhã participam desde maio de outras capacitações para aplicarem as mudanças propostas pela Secretaria. “Todos os coordenadores pedagógicos foram capacitados na metodologia de ensino Uerê, voltada para desfazer bloqueios cognitivos gerados pela violência”, enfatiza Conde.

Bairro-Educador e novos atores

O projeto Escolas do Manhã está vinculado ao programa Bairro-Educador. Em 31 de julho, o prefeito Eduardo Paes (PSDB) assinou decreto que autoriza um novo modelo de gestão de parcerias no âmbito da SME. O objetivo é transformar a comunidade em extensão do espaço escolar.

De acordo com o conceito de Bairro-Educador, os diferentes setores da comunidade – famílias, empresariado, organizações sociais, lideranças comunitárias – podem desenvolver um olhar educativo e contribuir para o processo ensino-aprendizagem. Além da melhora do ensino, as parcerias podem propiciar o desenvolvimento local.

Uma nova figura dessa nova experiência educativa é a mãe comunitária. “Mães da comunidade são convidadas a acompanhar o cotidiano das escolas. Elas ajudarão a controlar a frequência dos alunos. Essas mulheres conhecem as outras mães. Isso cria um vínculo maior entre comunidade e escola, também inibe atividades violentas”, explica Conde.

O projeto Escolas do Amanhã também estabelece parcerias entre as Secretarias de Educação, Saúde e Cultura. No caso da saúde, haverá profissionais nas escolas para realizar diagnóstico básico e orientar pais e alunos.

O primeiro laboratório para implantação do Bairro-Educador é a Cidade de Deus. A Escola Pedro Aleixo, integrante do Escolas do Amanhã, é uma das cinco escolas escolhidas como referências do modelo. Para ajudar nesta articulação e na formação dos educadores comunitários, foi firmada uma parceria com a Associação Cidade Escola Aprendiz, que trabalha com o conceito Bairro-Escola na Vila Madalena, bairro da cidade de São Paulo (SP).

“Estamos começando a criar uma rede com a aplicação da metodologia do bairro-escola. Em três meses, já realizamos algumas ações. Todos estão bastante envolvidos neste processo”, conta a gestora, Heloísa Mesquita.

Os alunos do quinto ano, por exemplo, percorreram o caminho que leva à escola, fotografando o entorno e levantando os problemas. Um deles foi a questão do lixo na praça. Acionaram a empresa responsável pela limpeza e já conseguiram melhorias no espaço. “É importante que os alunos tracem a trilha educativa para que realizemos a mudança juntos”, comenta a professora Patrícia Pacini, também coordenadora do Escolas do Amanhã na Pedro Aleixo.

Desafios

“As crianças vão encontrar uma nova escola. A grande diferença é a relação direta com a comunidade. A escola agora está muito além dos muros. O projeto tem tudo para dar certo. Mas continuamos com um grande problema: ter um quadro completo de funcionários”, expõe a diretora da Pedro Aleixo, Gisele Mathias Clemêncio.

Segundo Gisele, até mesmo a situação da coordenadora do Escolas do Amanhã está indefinida. No início da implantação do projeto, cada uma das 140 unidades escolheu seu coordenador. Poderia ser o professor, o diretor, o coordenador pedagógico ou morador da comunidade. O papel do coordenador do Escolas do Amanhã é articular as parcerias, para estabelecer a conexão entre escola e seu entorno.

“Aqui eu precisaria ter a Patrícia fora de uma turma para se dedicar ao Escolas do Amanhã”, conta Gisele.  No último semestre, além de dar aula para duas turmas, a professora Patrícia, há cinco anos na escola, fez os contatos na comunidade para selecionar os oficineiros. Também tem trabalhado em parceria com a coordenadora pedagógica para estabelecer o diálogo entre as atividades do contraturno e o projeto político-pedagógico da escola.

Cabe ainda ao coordenador do Escolas do Amanhã ajudar na construção da rede do Bairro-Educador, estabelecendo contato com as outras escolas, e também procurar parcerias com a iniciativa privada.

Apesar das dificuldades, as gestoras da Pedro Aleixo já notam aspectos positivos. “Quando cheguei aqui há quatro anos, só conseguia reunir no máximo 30 pais. Hoje consigo lotar um auditório com capacidade para 200 pessoas. É uma vitória. Os pais estão mais interessados. Sabem que a escola é um lugar de transformação, tanto que estão fazendo um abaixo-assinado para que tenhamos EJA (Educação de Jovens e Adultos). Eles querem voltar estudar”, conta Gisele.