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Academia

06 de Maio de 2009

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Brasil negligencia preservação de informações científicas

Talita Mochiute

Diante de sistemas ineficazes de preservação e armazenamento digital, o Brasil corre risco de perder muita informação científica. O modo como centros de informação e bibliotecas realizam seu trabalho também não garante a acessibilidade desses dados no futuro. O alerta é do antropólogo Miguel Ángel Márdero Arellano, que defendeu a tese de doutorado “Critérios para a preservação digital da informação científica”, na Universidade de Brasília (UnB).
 
“Os gestores dos centros de informação e de bibliotecas precisam ver a preservação digital de forma mais responsável. É necessária uma mudança de percepção no gerenciamento da informação para que não haja perda de dados e para garantir a acessibilidade e a possibilidade de recuperação do documento a longo prazo”, explica Arellano.

Segundo o pesquisador, que entrevistou gestores de 24 órgãos de pesquisa vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e acompanhou as atividades desses centros, as instituições não sabem como lidar com o material e armazenam os dados em sistemas frágeis. Além disso, não contam com profissionais especializados no tratamento de arquivos digitais. “Hoje não basta trabalhar com a parte física, o profissional também precisa saber gerenciar sistemas de formato digital”, comenta.

Arellano identificou ainda uma carência na definição de técnicas e de estratégias de preservação. “Há um conhecimento muito geral sobre o assunto. Isso reflete o que está ocorrendo na área de biblioteconomia”.

O autor do estudo defende um novo modo de enxergar a preservação. Antes o processo era entendido como meio de conservação de documentos em risco de deterioração. Hoje deve ser compreendido também a partir da necessidade de assegurar o acesso e a recuperação dos dados para pesquisas acadêmicas.

De acordo com o pesquisador, a adoção de critérios básicos é de importância estratégica para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. “A preservação digital é mais do que um processo técnico, ela é um processo social e cultural pelo fato de que nela se aplica critérios. É também um procedimento legal porque define os direitos e privilégios necessários para a manutenção permanente dos registros científicos”.

Para isso, Arellano elaborou seis critérios básicos. São: confiabilidade, responsabilidade política, sustentabilidade econômica, inclusão em repositórios digitais, transparência e acessibilidade de longo prazo.

Um dos primeiros passos é a criação de uma política institucional comprometida com a preservação digital. Já o critério de confiabilidade está relacionado com a adoção de padrões internacionais e com a garantia do funcionamento do serviço.  “Se você adota critérios internacionais, isso permite um maior intercâmbio das informações”, disse Arellano.

O uso de metadados padronizados (informações que oferecem o histórico do documento) amplia o intercâmbio e pode conferir a autenticidade do registro. A instituição também deve seguir o critério da transparência, informando todos os procedimentos seguidos e as normas de certificação.

A inclusão em repositórios digitais é outra medida para a preservação. “Eles já têm toda uma estrutura para armazenar os dados em um sistema gerenciável. Isso garante a perenidade dos conteúdos”, explica Arellano.

Sobre a acessibilidade de longo prazo, o antropólogo destaca a necessidade das instituições preservarem os objetos digitais de um modo que permita a transferência de dados para outros sistemas e formatos.

“No entanto, de nada adianta adotar um critério sem pensar em criar todo um planejamento da parte econômica. Para gerenciar a informação a longo prazo, é preciso desenvolver um modelo de negócios, buscando a manutenção do serviço”, conta Arellano.

Iniciativa eficaz

Das entidades analisadas, o único órgão que atende os seis critérios para a preservação digital é o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Destaca-se pelas soluções encontradas para preservação e por dispor de um mecanismo que permite acesso permanente aos documentos.

Iniciado em 1995, o sistema de acesso livre hoje é compatível com os padrões internacionais. O repositório institucional possui aproximadamente de 24 mil registros e 10 mil documentos completos.



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