Portal Aprendiz - Fórum Social Mundial em Terra Firme

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Educador Aprendiz

11 de Fevereiro de 2009

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Fórum Social Mundial em Terra Firme

Sylvio Ayala *

Terra Firme, nome emblemático do bairro ocupação esquecido pelo poder público e privado de Belém (PA), território onde se ergueu o Fórum Social Mundial (FSM) 2009. Contradição posta no caminho obrigatório para se chegar às duas universidades que sediaram o megaencontro, a Federal Rural da Amazônia (UFRA), onde aportou o Acampamento Intercontinental da Juventude, e a Universidade Federal do Pará (UFPA), que acomodou a programação oficial. Os muros altos do meio acadêmico e o policiamento ostensivo providenciado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado impediram que moradores daquela região e de outros subúrbios se misturassem aos 133 mil participantes inscritos no Fórum. Quem não tivesse o crachá: R$ 15 para entrar. Especialmente para o “outro mundo possível”: R$ 52 milhões em armamentos, coletes e viaturas, além de 7 mil agentes “preparados para coibir a violência”.

Assim, contraditoriamente, Belém do Pará e sua Terra Firme (tão acolhedora quanto paupérrima) se tornaram nesse início de ano o “centro da cidadania planetária e referência mundial no questionamento à desigualdade, à injustiça, à intolerância, à devastação ambiental e ao preconceito”. Espaço geográfico de valor imensurável pela sua biodiversidade, a Pan-Amazônia foi escolhida como território do 9º FSM, reconhecendo a força e a tradição dos povos da floresta, onde o Brasil divide fronteiras e responsabilidades com Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, além da Guiana Francesa (por onde some a pesca ilegal e as crianças sem nome). Muitos índios foram vistos e ouvidos, ainda que figurando aqui ou ali como etnia exótica. Poucos negros levantaram sua voz, aumentando a expectativa para o FSM 2011, que será central em um país da África. O próximo será policentrico, possivelmente dividido entre Argentina, Istambul e novamente Belém. 

Um amigo pergunta: O Fórum manteve a chama? Devolvo a indagação: Nós conseguimos mantê-la? O fogo desse grande encontro, o impacto dessa zona de debate e vivência transversal depende de cada ação local direta, de cada poderosa devolutiva. Do indivíduo para seu grupo, da tribo para a aldeia, do mocambo ao quilombo. Do micro para o macro, não o inverso, afinal, já chega de ordens caindo de cima. O dissenso é bem-vindo, embora algumas correntes defendam que uma mensagem única obteria influência mundial mais eficiente. Desde que decolou de Porto Alegre, o equilíbrio do Fórum reside na alternância, política e humanitária, atualmente exercida por cerca de 150 entidades que compõem o Conselho Internacional do FSM, mas, sobretudo, expressada na atuação das organizações do planeta todo, em suas próprias e devidas áreas. No ir e vir, entre reflexão e intervenção, teoria e práxis, o desafio do ativista é reinventar a revolução. Antes de mais nada, instâncias e instituições, indivíduos compõem essa grande rede. Movidos por vontade própria, uma vez na multidão, no brado coletivo estendemos nossas fronteiras, apresentamos nossa família e lançamos nossas representações. Ou é brincadeira esse negócio de sociedade civil organizada?

Não obstante, o sindicalismo e o partidarismo (com destaque para o PT) marcaram sua presença no FSM de Belém, em blocos sincronizados ou por Lulistas avulsos que explicam a larga aprovação presidencial. Aliás, o poder estatal puxou certa brasa socialista através dos pop-latino presidentes em bancada memorável: Fernando Lugo, Evo Morales, Lula, Rafael Corrêa e Hugo Chávez, na carona a governadora do Pará, Ana Júlia. Não se escutou muito além do ufanismo corriqueiro, mas ficou claro em ato para 12 mil pessoas que a máxima “mudar o mundo sem tomar o poder” perdeu a validade. O sociólogo e cientista político Emir Sader aponta para esse momento no qual os movimentos sociais passam a eleger seus próprios governos, como na Bolívia, e assumir o protagonismo social, quebrando o paradigma do terceiro setor fornecedor de solução. Essa outra disputa de hegemonia, essa revalorização do papel do Estado gera nova relação com a política. O que nos remete ao Fórum de Davos, Suíça, baliza no contraponto do FSM, onde a crise financeira também rebocou o Estado para o centro do debate neoliberal. “O pêndulo se moveu e o poder voltou aos governos”, observou o próprio fundador do Fórum Econômico, Klaus Schwab.

Lógico que o desastre monetário virou temática nos campus. Mais sentido para a Economia Solidária, que lotou os Fóruns Estaduais e outras atividades de troca e compartilhamento, atraindo muita gente nova. A rede de cooperação e de empreendimentos produtivos formada na criação dos bancos comunitários demonstrou articulação fluida e moedas próprias. Autogestão é a pedida. Quase um mandamento no Acampamento Intercontinental da Juventude. Belém ensinou na sustentabilidade para o povo caravaneiro. 15 mil acampados habitaram um acampamento limpo, harmonioso e bem freqüentado. Para não fugir a regra, a contradição estava lá, com os infiltrados do comércio informal, menores ralando como gente grande, garotinhas sujeitas à exploração sexual infantil. Estava lá no pacifismo arbitrário da Aldeia da Paz, exemplar eco-laboratório que regulava a entrada dos visitantes conforme lapsos holísticos do além. Mas nem a torrente de água por todos os lados retirou o brilho do AIJ, que ao cair da noite ficava mais lindo e sonoro, lembrando que estávamos do ladinho da Floresta Amazônica. Aromas e sabores, ilhotas e povoados, carimbó e tecnobrega, maniçoba e tacacá, prestigiando o Belém Expandido (proposta de descentralização) cidade afora, conhecemos outros percursos, caminhos especiais. Como na trilha aberta para se chegar à Escola Bosque e à Escola Pesca, duas experiências de ensino público integral fabulosas (formativas e até profissionalizantes) para crianças e jovens das comunidades ribeirinhas, no meio do mato, na ilha de Caratateua. 

Para quem quer fórmulas prontas de motim, aparelhamento ou salvação, o FSM pode frustrar. Seguir o calhamaço da programação oficial não foi garantia de bom aproveitamento nessa última edição, aliás, a chance de ir parar num esplêndido debate foi a mesma de empacar numa oficina escabrosa. Certo é que foi difícil de achar, tortura comum ao exército ‘bolsas brancas’ de participantes pra lá e pra cá. Quem fez seu caminho intuitivamente se deu melhor. A pergunta recorrente foi e é: vai e vem o evento alter-mundista, o que fica? O que alça voo? A Assembleia das Assembleias (superlatividade pouca é bobagem) deliberou Campanhas Globais para 2009: mulher, trabalhadores rurais, Cúpula do G8, Cúpula das Américas, do Clima, são os focos, logo mais teremos uma semana de protestos contra o capital e a guerra entre os dias 28 de março e 4 de abril. Mas a repercussão local é uma tarefa sua, minha, nossa. Como deixar a essência desse encontro permear nossas experiências diárias? Correndo junto como o Rio Guamá, que nos embalou de barco pela orla da capital, até o mercado Ver-o-Peso? Como fazer com que o Fórum não se torne tão temporal e repentino quanto a pancada de chuva que cai no mínimo duas vezes por dia em Belém? Trabalhando. Crença no trabalho. Só ele, puro, simples e verdadeiro, pode tornar concretos os conhecimentos e ensinamentos adquiridos. Engajamento? Ação direta? Cooperativismo? Educomunicação? Permacultura? Escolha seus instrumentos. Ao trabalho!



* Educomunicador da Associação Cidade Escola Aprendiz

Educador Aprendiz

Neste espaço os educadores da Cidade Escola Aprendiz escrevem sobre assuntos relacionados ao dia-a-dia da instituiçao.

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