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16 de Julho de 2008

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Leitura é fundamental em tempos de crise

Vivian Lobato

“A leitura e literatura têm um papel fundamental de reconstrução em tempos difíceis. Elas muitas vezes dão a construção de sentidos, ajudam a nos compreender e a entender melhor o mundo. Com isso, recriamos o chão perdido e superamos as dores”.

A afirmação da antropóloga e pesquisadora do Laboratoire LADYSS Université Paris, Michele Petit, foi o ponto de partida da mesa “A arte de ler em tempos de crise”, que ocorreu no Encontro Internacional Literatura e Ação Cultural. O evento acontece na cidade de São Paulo (SP).

O encontro reúne pesquisadores, professores e mediadores brasileiros e de outros países com o intuito de proporcionar um campo de troca de experiências, idéias e estudos. Além disso, o evento pretende contribuir para a construção de um novo olhar sobre a formação dos leitores: a leitura como uma ação cultural.

Michele Petit discorreu sobre sua experiência em trabalhos de análise da contribuição da leitura na construção e reconstrução do sujeito. A antropóloga é responsável por um estudo que analisa 15 programas que apóiam jovens em situações de crise em países europeus e latino-americanos.

A pesquisadora entrevistou adolescentes e analisou o papel da leitura em tempos difíceis. “O estudo inclui tanto jovens saídos de guerrilhas e de catástrofes naturais, que sofreram com deslocamento forçado de região, como jovens usuários de drogas, de baixa renda, baixa escolaridade e em situação de risco e miséria”, explicou Michele.

A leitura como forma de superação

Para Michele, a leitura ajuda a revelar regiões das próprias pessoas que antes eram desconhecidas, além de enriquecer a atividade psíquica e os bens culturais, permitindo um desvio vital, que rompe com cada indivíduo, redirecionando o pensamento e a memória. “A leitura funciona como um conselheiro da dor, um acolhedor nos momentos difíceis. Por isso, ela tem esse papel tão importante de construção e reconstrução do sujeito”.

Segundo a antropóloga, ler é um convite a liberdade, uma chance de cada um construir o seu caminho e enfrentar as dificuldades. “Cada leitor age de uma forma singular, baseado em suas próprias histórias e vivências, o que torna a leitura um espaço de construção único, próprio e íntimo. Um lugar onde se encontra um refúgio, diversos laços, personagens e histórias”, completou.

Michele também explicou que ler faz as pessoas falarem. “Depois de uma leitura, as histórias afloram. Lembramos de muitos momentos, de nossas vivências. A leitura nos ajuda a viver, a pensar, a achar o seu lugar no mundo, a aceitar a realidade que devemos enfrentar e dar sentido as coisas, a vida”.

De acordo com a antropóloga, a leitura tem um importante papel, pois facilita o envolvimento com outras pessoas e estimula as trocas, as discussões, o compartilhamento de história. “Aceitar e entender a si mesmo e ao outro, é fundamental. Olhar as coisas de outra perspectiva e descobrir outros mundos são experiências muito ricas, que nos estimulam a contar o que passamos, seja uma perda, uma falta, uma transfiguração, um trauma”.

A pesquisadora também ressaltou a relevância de mitos e contos. “Mitos e contos recorrem à tradição oral, estimulam a memória, como um exercício terapêutico ou uma atividade psíquica”.

Michele deu como exemplo um projeto na Colômbia com refugiados, onde os encontros se basearam nos relatos de Homero. “Através das passagens de Homero, houve uma identificação. Os refugiados colombianos aprenderam a lidar com suas próprias perdas e com suas dores, pois é a mesma história. História de um povo que sofre com a guerra, com o deslocamento e com a perseguição”.




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