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Academia

16 de Setembro de 2008

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Mães opinam, mas médicos definem parto com intervenção cirúrgica

Bruna Souza

Embora seja preferência entre as gestantes, o parto humanizado ainda enfrenta a resistência de grande parte dos médicos. A conclusão é da dissertação de mestrado “Humanização do parto nos contextos público e privado no Distrito Federal”, da socióloga Ticiana Ramos Nonato, defendido na Universidade de Brasília (UnB).

O estudo compara o atendimento às gestantes em hospitais públicos e privados, baseando-se em uma Casa de Parto em São Sebastião e um hospital privado no Plano Piloto. Ticiana acompanhou 15 mães (sete atendidas pelo setor público e oito pelo privado) nos períodos pré e pós-parto. Também entrevistou 14 profissionais de saúde (oito do setor público e seis do privado) envolvidos na assistência humanizada aos nascimentos.

O chamado parto humanizado prega o mínimo de traumas cirúrgicos desnecessários e apresenta benefícios para a mulher, entre eles, menor período de recuperação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um máximo de 15% do total de partos por cesariana, e a utilização de episiotomia (corte feito entre a vagina e o ânus para ajudar no parto) também em apenas 15% dos casos. Entretanto, segundo Ticiana, a média brasileira de cesarianas está em cerca de 30%.

Para a socióloga, existe um contexto cultural complexo que envolve as altas taxas de cesariana, desde a formação dos profissionais que acompanham o parto, passando pelas representações do parto normal, até as escolhas das próprias mulheres.

Na rede privada, por exemplo, observou-se a preferência pela intervenção cirúrgica, pois o procedimento é mais rápido e tem hora para terminar. Um médico pode fazer até quatro cesarianas no mesmo dia, diz o estudo. Já um parto normal pode durar mais de 12 horas. Como resultado, cerca de 80% dos partos no serviço privado brasileiro são feitos por cesariana.

Para a socióloga, outro aspecto que pode explicar as excessivas intervenções cirúrgicas, é a cultura de que as cesarianas não oferecem riscos. “A cesariana desnecessária expõe mulheres e bebês a maiores riscos”, explica. No procedimento cesariano, os maiores riscos que a mãe corre são infecções, hemorragias, dificuldade de engravidar novamente e possibilidade de complicações.

“Há mulheres que ficam com uma dor crônica na região pélvica tendo dificuldades até para consumar o ato sexual”, afirma o obstetra Jorge Klun, defensor do parto humanizado. Ele afirma ainda que os riscos de uma cesariana são ainda maiores do que os riscos de um parto normal. “O bebê pode nascer prematuro, ainda não totalmente formado e com maiores chances de pegar infecções”, completa.

Segundo o obstetra, alguns mitos ainda envolvem o parto normal. “A falta de dilatação, por exemplo, é um mito. O problema é que o médico não espera tempo suficiente para que haja a dilatação total da vagina”, afirma. Segundo o médico, procedimentos como a episiotomia - pequeno corte entre a vagina e o ânus para auxiliar na saída do bebê - também são questão de paciência. “Em mais de 90% dos casos esse procedimento é desnecessário”, completa.

Enquanto isso, o estudo identificou que no sistema público, diante da postura do Ministério da Saúde de incentivar a humanização da assistência ao parto e a redução das taxas de cesariana, existe a prevalência de partos normais. Outra característica encontrada no serviço público diz respeito ao caráter uniforme das ações. Os procedimentos são padronizados, pois o conceito de parto humanizado é institucional. Só que, de acordo com as análises da pesquisadora, apesar de o assunto ser trabalhado brevemente nas palestras de pré-natal, as mães não têm uma noção muito clara de suas opções.



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