Educação comunitária, Bairro-Escola e a relação orgânica com a comunidade

As práticas da Educação Comunitária e Bairro-Escola promovem um espaço para que possamos refletir sobre uma nova forma de relação que está se estruturando entre primeiro, segundo, terceiro setores e um “novo” ator político: a sociedade civil. É uma relação ecológica, que proporciona conexões orgânicas entre os setores com objetivos educativos.

A educação comunitária e o Bairro-Escola funcionam como o elemento de ligação, como catalisador para uma sociedade mais saudável, justa, solidária, empoderada e aprimorando simultaneamente comunidade e a educação, com o objetivo de integrar escola e a comunidade, compondo uma vivência única de aprendizado. 

Quando se fala em Educação Comunitária pela perspectiva da escola, considerando que o conhecimento está em toda parte, onde o saber acadêmico tem tanto valor quanto o saber popular, vem à tona uma nova forma de pensar e fazer a educação. E para que isso seja possível, precisamos conectar com a comunidade, saindo da sala de aula, derrubando os muros da escola, fazendo contato com o mundo lá fora e trazendo para dentro da sala de aula, os conhecimentos, os lugares, as organizações, as pessoas e tudo aquilo que possa contribuir para a aprendizagem integral do aluno. Não se trata exclusivamente de sair da sala de aula, mas sim, de descobrir e relacionar o que está lá fora, distante, desconectado, desintegrado e desconsiderado como saber, com a vida do aluno, relacionando o currículo escolar à vida do aluno. Só assim poderemos responder à grande questão da função do educador, preparar o aluno para a vida.

O educador diante dessa questão tem dificuldade de entendê-la, ele foi formado de uma maneira reducionista, separando o conhecimento formal da vida vivida. Muitas vezes não passamos por esta experiência ecológica, pelo contrário, a forma como aprendemos e ensinamos na maior parte das vezes, na educação formal, vem de certa forma, pronta e embalada, bloqueando nosso instinto de descobrir, experimentar, criar hipóteses, num processo constante de aprender desaprendendo, na verdade, era proibido errar.

Celestin Freinet (1896 – 1966), educador francês, percebeu que o interesse de seus alunos estava na realidade do lado de fora de sua sala de aula. Partindo desta constatação, Freinet resolveu sair com as crianças. Com o tempo foi descobrindo que a cada saída, seus alunos ficaram mais entusiasmados em descobrir o mundo, além do fato que o relacionamento aluno professor passou a ser diferente, muito mais próximo contribuindo para o processo de aprendizagem. Esta experiência, transformada em uma das técnicas da Pedagogia Freinet, “Aula das Descobertas”, pode colaborar para o processo de educação comunitária que queremos construir, pois parte dos mesmos princípios, contribuindo para a construção do Bairro-Escola.

Educador comunitário

Pela perspectiva do Educador Comunitário, os cinco passos das Aulas das Descobertas podem contribuir para o desenvolvimento de suas atividades, já que ele estará trabalhando junto ao professor como facilitador.

Quando a proposta parte do professor, o educador comunitário contribui com os aspectos operacionais e no planejamento. A “Motivação” é desenvolvida na sala de aula e quanto maiores forem as informações e possibilidades que ele pode disponibilizar ao professor, maior será o aproveitamento das atividades. Como articulador, ele deverá apoiar e incrementar as possibilidades do professor.

Durante a “Preparação”, seu conhecimento em relação ao espaço proporcionará muitas possibilidades para os alunos, conectando as informações e a logística.

Da mesma forma, durante a “Saída”, sua participação é importante, mas como parte do processo da educação comunitária.

O processo de “Comunicação” conclui a atividade para os alunos e professores, mas para o educador comunitário o resultado da aula das descobertas será a possibilidade de dar continuidade ao processo de educação comunitária. O resultado da aula das descobertas deverá ser utilizado como início de outras conexões.

A outra maneira que o educador comunitário deve atuar é criando a demanda para a escola, tendo como base de trabalho as conexões desenvolvidas, constituindo uma rede de relações na comunidade onde está inserido.

Para que esta rede de pessoas, entidades, espaços públicos, empresas, pais, professores e alunos se unam a uma vontade coletiva, a função do educador comunitário deve estar voltada para a facilitação das relações entre as partes para atingir um objetivo comum. Unir os elos desta rede com o objetivo de melhorar a qualidade dos saberes implica em conhecer cada um deles, conhecer seus objetivos individuais e uni-los em um objetivo comum. Cada elo tem seu objetivo, mas se, no entanto, facilitarmos a comunicação e a conectividade entre eles, o potencial da rede será muito maior.

A Aula das Descobertas pode ajudar na construção do Bairro-Escola, quando consideramos que cada espaço contemplado no projeto deva estar interligado, ou seja, fazendo parte de um “todo” para o aluno, para o professor e para a escola. A “Motivação” é o próprio projeto de Bairro-Escola. A “Preparação” é o momento de descobrir os novos espaços e possibilidades, a “Saída” será todo dia e cada dia será diferente. O “Prolongamento” poderá ser em todos os lugares, até mesmo na sala de aula, unindo as partes e por fim a “Comunicação” que será o resultado aprendido comunicado à comunidade, à rede que trabalhou colaborativamente na Educação Comunitária.

Atravessar as paredes, enxergar o outro lado, perceber o “todo” e que fazemos parte dele é possível e necessário.

O educador comunitário contribui para a construção do Bairro-Escola de forma orgânica e democrática, que podemos descrever como uma estrutura em rede.

Este processo de construção contribui para que a comunidade assuma seu papel como agente de mudança na construção de um mundo melhor. Como processo, devemos ter claro que tipo de estrutura desejamos para que estas mudanças possam acorrer.

Propondo uma estrutura em rede, significa que seus integrantes estão conectados horizontalmente a todos os demais, diretamente ou através dos que os cercam, formando uma “teia” de múltiplos fios. É o conjunto resultante, que se espalha indefinidamente para todos os lados, sem que nenhum dos seus elos seja considerado representante dos demais ou o mais importante. Trabalhar em rede pressupõe que não existe um “chefe”, o que existe é um grupo de pessoas ou de organizações que estão trabalhando com os mesmos valores e com uma vontade coletiva de realizar determinado objetivo.

Na sua construção o que unirá as pessoas à rede não é apenas uma orientação comum em relação a determinados objetivos. É necessário existir um conjunto de valores que se estabelecem como comuns.

Neste processo, o educador comunitário deverá fomentar as relações, criando condições para que os elementos locais como; grupos, escolas, ONGs, empresas, pais, alunos e professores se articulem e desenvolvam adequadamente parcerias com objetivos educativos e valores comuns.

Pela visão orgânica da sociedade não podemos conceber uma comunidade na qual não exista nenhum relacionamento entre as partes que a compõe. O que devemos verificar é a forma como estas relações são desenvolvidas, se está baseada no poder, no paternalismo, hierarquizada ou se está baseada em valores e objetivos comuns, na não-diretividade e na co-responsabilidade.

Trabalhar em rede é um novo jeito de se organizar. Formando parcerias e alianças, os membros participam de um coletivo, tomam decisões, atuam sem diferentes instâncias de poder, mas com papéis e atribuições específicas conforme as estratégias estabelecidas. É uma outra forma de responder às necessidades de transformação da comunidade. Não há representação e não há quem fale por ela individualmente, não existe o centro de poder, ele está em toda parte, ao contrário do que estamos acostumados.

Não existe uma fórmula para criar uma rede, só aprenderemos a fazer rede fazendo rede. É uma prática complexa baseada na experimentação. Partindo das parcerias espontâneas, das conexões pontuais, que possam existir na comunidade, o educador comunitário poderá iniciar o processo pedagógico de construção de rede. Trabalhando os valores e objetivos da comunidade, respeitando a sua vocação, personalidade, o seu DNA e incorporando em suas ações e relações, possibilita que surjam como conseqüência os vetores sociais resultantes, ou seja, as ações transformadoras.

A função do educador comunitário neste processo é de zelar pelo seu funcionamento democrático e horizontal, como um espaço aberto, sem dono, garantindo sua autonomia, mas, consciente que “faz parte” da rede e não é o seu “dono”. Suas atividades como facilitador podem ser, desde constantemente mapear os potenciais educativos, buscar novos elos externos ao limite geográfico, mapear as competências, afinidades e a história comum, como também animar as relações, propor a divisão de tarefas (evitando sobrecarga e personalização), comunicar as ações realizadas, conectar grupos, enviar boletins, criar um ambiente amigável para que as informações circulem e sejam compartilhadas e organizar encontros presenciais. Estes são alguns exemplos de ações que contribuem com o desenvolvimento e fortalecimento da rede. Por outro lado, o educador comunitário não terá modelos ou regras para seguir, mas sim criar, de forma coletiva e democrática, conexões que façam sentido e desenvolver o processo de decisão por consenso e de auto-organização.

O Bairro-Escola estruturado como rede tende a ser um espaço aberto para articulações de ações educativas eficientes, possibilitando que a sociedade civil possa participar ativamente do processo, construindo o caminho na busca de uma nova sociedade.

O desafio é muito mais complexo. A “mudança interior”, como diz Chico Whitaker, implica na vivência da solidariedade e na mudança de relação com o nosso “próximo”, na mudança de nossas práticas de ação política, para que sejam realmente transformadoras, e na mudança nos hábitos e valores que orientam nossa vida cotidiana.